"Gloria Mundi" de Laetitia Morais
DINAMO10 vai a banhos no BALNEÁRIO parte II

Situações iminentes, premonitórias, estados imprecisos de observação: assim se configura o trabalho de Laetitia Morais, delineado maioritariamente pela linguagem do desenho e da imagem em movimento.

Em Gloria Mundi, reúne-se um conjunto de obras pictóricas igualmente denunciadoras de um estado preparatório e de expectativa. Por analogia à anterior função do espaço expositivo, que serviu como balneário dos operários no seu período industrial, o conjunto alude ao acto de imersão, considerado por várias culturas depurativo da actividade mental, um enterro da memória para a aquisição decisiva da vacuidade.

A imersão sanciona as grandes etapas da vida. Na Antiguidade Clássica, mas também como prática cristã, as estátuas dos deuses e dos santos eram mergulhadas em banhos purificadores, com o intuito de evocar o renascimento ou de conjurar a seca. No hinduísmo, atribui-se o poder da fecundidade ao deus-macaco Hanuman e, durante a civilização egípcia, o cinocéfalo branco, espécie de macaco africano, era reincarnado no deus Thot, a quem os banhos eram dedicados. Já no Camboja, os macacos foram frequentemente caçados por serem considerados detentores das águas pluviais. Lembremos ainda o banho de sagração dos cavaleiros ou a fonte mercurial mencionada nos tratados de Alquimia. O banho é condição sine qua non de passagem para a abstracção, de iniciação, de uma não-morte ou resolução para a continuidade. Pensemos, como Bachelard, a água como um chamamento para a nudez.

Cenário a construir; casa que é refeita sobre uma base puída; trama que sustenta a estrutura; operação do vácuo e do negativo... É nesta ambiguidade do que aconteceu, do que está a acontecer ou por vir, que as obras instaladas no balneário se revelam, numa lógica que remonta à técnica de montagem, de ocupação e desocupação, onde nada lhes é determinante.

Porque a dimensão sonora e o seu carácter invisível têm um papel preponderante,Laetitia Morais convida Miguel Sá a intervir na abertura da exposição. Por via da música improvisada, partilham ambos, afinal, a trama de um processo de desagregação e retorno.

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